O animado inanimado
Já me adianto em reconhecer que não estou à altura de falar sobre o título do Galo como um todo. Poucos estão. Aquilo lá foi coisa pra Nelson Rodrigues ou algum outro que consegue ir além da realidade, que foi o que aconteceu ontem (e em um pouco do hoje). Surreal.
E se for pra fazer isso, me limito a um pequeno pedaço. Num estádio gigante, com grandes jogadores, enorme torcida, bilheteria nababesca e macro personagens, vou falar do micro. De um micro pedaço do gramado que, rebelde e em festa, se desgarrou depois de fazer a participação crucial.
Nas enormes proporções do jogo, atletas pequenos não deveriam ganhar protagonismo. Pequeno não como Bernard, gigante. Pequeno no futebol, porque na estatura o dito cujo é grande. Grandalhão. Isso como a mais pura definição do atacante que fica lá na frente para atrair marcação e servir de parede. Esse não poderia ser o dono da América.
Antes de pensar nisso ele teria que vencer a defesa e principalmente aquele tal de Victor-do-corpo-fechado. Passou! Seria o gol do cala boca, do cala Mineirão, do azar do Cuca. Os predestinados teriam uns dez minutos pra fazer dois gols, fora o baque emocional. Muito, até pra eles que cansaram de desafiar a realidade.
Ferreyra. Ferreyra e o gol. Bola no pé. Ângulo favorável.
Antes que as favas fossem contadas, ele, o pedaço do gramado que estava encostado, esquecido lá perto da ponta esquerda, perdido na uniformidade do todo, resolveu se mexer. Molhadinho, danado, puxou as travas da chuteira esquerda daquele cara para dançar.
O melhor golpe em um grandalhão é na base. Ele tomba. Tombou.
Aquele pedaço do gramado nem se aguentou. Virou tufo. Pulou feito o cara que estava em casa e teria ficado incrédulo em sua crendice. Incomodou o cético que depois daquilo ficou cético em relação ao próprio ceticismo.
Como prêmio, após aquele monte de coisa que aconteceu entre o tombo e o apito finalzão, os pênaltis vieram para seu lado para que assistisse em bom ângulo. O mesmo que Ferreyra teve.
O Galo chegou lá. Fosse Dimba jogador do Atlético, já saberia qual pedaço iria degustar. Como não é, o gramado continuou ali, de volta para o todo, que se transformou no palco da festa merecida.
Além de competência, o novo dono da América contou com traves, travas, orações, horto serial killer, perna esquerda, refletores e gramado. Inanimados e animados juntos. Tudo conspirou pra que fosse, mas que fosse bem difícil.
Ah, e para não descumprir a promessa: Cuca é um dos melhores treinadores do Brasil, mas e tem uma baita duma estrela!
Ricardo Vieira
Ricardo Vieira

O brilho do futebol está nas pequenas coisas!!! Cara, os ingredientes que tornam uma partida épica são muito "pequenos" mas entram para a história.
ResponderExcluirÓtimo texto